sábado, 23 de janeiro de 2010

Mãe estressada, criança obesa

É claro que não é uma regra, mas o estado emocional materno pode afetar o apetite dos filhos. Nós adultos identificamos facilmente a ligação entre o estresse e a alimentação: O fato de nos sentirmos mais ansiosos determina quase sempre alterações no comportamento alimentar. Para alguns, a subida dos níveis de ansiedade implica na perda quase total de apetite; mas para outros o stress é responsável pelo aumento do apetite e, quase invariavelmente, pelo aumento de peso.

Hoje em dia, muito se fala sobre a obesidade infantil e sobre a necessidade de os pais se responsabilizarem por hábitos de vida saudáveis – que incluem uma alimentação variada e a prática regular de exercício físico – é divulgado um estudo interessante que mostra que em famílias menos favorecidas, mas, em que a comida é suficiente, o estresse da mãe pode contribuir para a obesidade dos filhos. Quanto maior é o nível de ansiedade da mãe, maior é a probabilidade de as crianças se tornarem obesas. Curiosamente, esta probabilidade decresce no caso das famílias em que há carências alimentares.

Num ambiente estressante, a comida serve de alguma forma, para confortar, seja através do aumento da quantidade de alimentos ingeridos, seja através da alteração no tipo de alimentação. A influência é mais significativa em crianças com menos de 10 anos, pois nessa fase da vida, os filhos costumam fazer refeições em casa. Na adolescência, quando o contato com os amigos aumenta, os hábitos alimentares são alterados. A “independência” dos adolescentes proporciona alternativa de alimentação, além de mais recursos sociais e emocionais para lidar com o estresse maternal. Pelo contrário, as crianças pequenas tendem a interiorizar mais essa ansiedade.

Observe como está o seu estado emocional e como os seus filhos se comportam diante dele. Ficam tristes? com apetite? irritados? Agora tente se acalmar e observe novamente. Você verá uma enorme diferença. Experimente! 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Alguém para chamar de Mãe

“Se a felicidade depende de um período, esse período é o primeiro ano de vida. Se depende de uma pessoa, essa pessoa é a mãe”. A frase do psicanalista Donald Winnicott nos fala da importância da mãe na vida dos filhos. É visível que nos dias atuais os filhos andam órfãos de pais vivos. A grande maioria dos pais andam tragados pela correria do dia a dia, pelos compromissos excessivos e sem muito tempo para exercer um importante e fundamental papel: cuidar dos filhos.
Na cidade onde vivo existe uma cultura muito enraizada de deixar os filhos com a babá. Esta, muitas vezes, assume quase que 100% as funções da mãe. Certo dia, fui a um aniversário infantil e me deparei com a seguinte cena: O pai, a mãe e os filhos sempre acompanhados por jovens ou senhoras vestidas de branco, a babá. Para cada filho uma babá. Eram as senhoras de branco que corriam atrás dos filhos, davam comida e chamavam atenção por alguma situação que não achassem certas. No final da festa, com os bambinos já cansados, eram as mesmas mulheres de branco que carregavam os pequenos até o carro e iam com eles no banco de trás preservando a sua segurança. Ao observar a cena, fiquei a me perguntar o que os pais tinham ido fazer ali? Comer? Conversar? Ou aproveitar algum momento divertido com os filhos? Os filhos estavam totalmente entregues as babás, e os pais, perdendo um momento único com eles.
Não sou contra termos uma babá para nos ajudar com os nossos filhos, eu mesma tenho uma. Apenas defendo que as babás devem estar presentes com os nossos filhos apenas nos momentos em que realmente não podemos estar com eles, e que estes momentos sejam mínimos. O que acontece hoje em dia, é que a mulher acorda cedo, muito antes dos filhos e sai para trabalhar, retornando a noite quando eles já estão dormindo. A mulher deve parar de trabalhar? Acredito que não. O ideal é poder conciliar as duas coisas e faze-las bem. Pois quando decidimos ser mãe, precisamos ter a clareza de que a vida muda. Realmente não dá para continuar dormindo ate tarde, nem com as intermináveis saídas nos finais de semana sem por em prejuízo a relação com os filhos.

Certo dia, conversei com uma mãe que lamentava pelo fato da filha de dois anos não querer ficar com ela e sim com a babá. Ela me perguntou por que isso acontecia. Fiz-lhe algumas perguntas antes de responder:
- Quem acorda com a sua filha pela manhã?
Resp. A babá
- Quem dá banho, troca a roupa e dá o café da manhã para ela?
Resp. A babá
- Quem brinca com a sua filha durante o dia?
Resp. A babá
- Quem cuida dela quando está doente?
Resp. A babá
- Quem leva a sua filha para passear no final de tarde?
Resp. A babá
Ao responder as minhas perguntas, a mãe conseguiu responder ao seu questionamento. Bem, não resta dúvida que quem assume a maternidade desta criança é a babá. Ela é a verdadeira mãe. Pode ser duro ouvir isso, mas quando abrimos mão de cuidar de nossos filhos e delegamos isso a alguém, esse alguém realmente assume o nosso lugar, não apenas a nível de tarefas, mas a nível de vinculo, de confiança...

Um outro exemplo: ao conversar com outra mãe sobre o seu filho, a mesma me perguntou se eu não gostaria de falar com a babá, pois era ela quem ficava a maior parte do tempo com a criança. Então lhe perguntei o que fazia com o seu tempo. Ela respondeu que além de trabalhar tinha que se cuidar indo a academia, salão e encontro com as amigas, pois ela precisava de momentos para si. É claro que precisamos nos cuidar, ter tempo para nós mesmas, mas, e nossos filhos? Quem cuida deles? A mãe um pouco indignada me disse: “Mas eu preciso trabalhar para pagar as contas, dar um conforto para ele, viver melhor...” Bem, penso que esse é o preço que se paga para não estar com os filhos. É uma escolha. Caso você não tenha escolha, tente valorizar ao máximo o tempo que tem junto dos seus filhos. Brinque com eles, assista a filmes, jogue, leia livros, vá a praça, etc. Existem muitas coisas simples que podemos fazer com eles. Não adianta nada estar em casa se você estará grudada na TV ou no computador. É enganar-se que está cuidando, valorizando o tempo com eles. Os filhos precisam de contato, diálogo, brincadeiras, cuidados... Pense nisso!
Abraços,
Lila

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Meu filho é Hiperativo?

Recebi há alguns dias atrás uma mensagem de uma mãe. Ela estava um pouco angustiada com o comportamento de seu filho caçula. Ela descreveu as diferenças visíveis entre os seus dois filhos, o mais velho de oito anos e o mais novo de um ano e meio. Foi muito enriquecedor trocar idéias com esta mãe e poder ajudá-la um pouco esclarecendo as suas dúvidas.

Pensando em compartilhar com outros pais que por ventura tenham as mesmas dúvidas, essa mãe autorizou postar o nosso diálogo neste Blog. Agradeço a ela pela gentileza.

Abaixo, descrevo o nosso diálogo:
Mãe: “O mais velho é um doce, sempre foi super tranquilo e nunca me trouxe preocupações. O mais novo nasceu prematuro, de 36 semanas, e desde pequeno sempre me deu muito trabalho. Sempre foi muito chorão, dormia muito mal. Com apenas dois meses de idade não dormia durante o dia, tirava apenas cochilos. Não tem paciência pra nada. Trocar a fralda é uma tarefa muito difícil de ser realizada. Desde que ele completou um aninho e começou a andar as coisas pioraram muito, agora ele não para um minuto, parece que não se cansa nunca. Ele dorme muito mal. Durante a noite ele acorda muitas vezes e tem o sono muito agitado, chegando a ter olheiras, mesmo assim, acorda com toda disposição. De uns meses prá cá, o comportamento dele tem mudado: além de dormir muito mal, ele tem demonstrado um comportamento agressivo com ele mesmo. As vezes puxa os próprios cabelos, morde as mãozinhas e, quando fica nervoso com alguma coisa costuma bater com a cabeça no chão, ou no sofá. Ele também morde com muita força a chupeta, demonstrando muita ansiedade e nervosismo. Pra viajar com ele é um sacrifício, isso porque ele se solta da cadeirinha do carro e corre para o banco da frente. Em casa ele corre bastante, é muito estabanado, cai a toa e vive todo cheio de hematomas. É muito impulsivo, faz as coisas sem demonstrar qualquer medo, se joga de cima da cama, pula, fala, canta o tempo todo, mexe em tudo, a casa vive de cabeça para baixo. Na hora de comer é um sacrifício, ele vai muito bem nas primeiras colheradas, mas logo se cansa de ficar sentado e sai correndo. Ele atrapalha muito o irmão mais velho nas brincadeiras e atividades e isso me traz grandes conflitos. O comportamento é igual em qualquer lugar, confesso que ultimamente tenho deixado de frequentar certos lugares, porque volto pra casa exausta de tanto correr atrás dele.

Bem, diante desses sintomas, a pediatra disse que acha essa agitação um pouco excessiva pra idade dele. Ela me aconselhou a colocá-lo na natação pra ver se ajuda um pouco e também me pediu que procurasse um neurologista para fazer uma avaliação mais precisa. Eu gostaria de saber sua opinião sobre o caso dele. Andei pesquisando muito sobre a hiperatividade, e mesmo ele sendo muito pequeno, acho que ele já apresenta muitos sintomas, mas o que você acha?”

O seu filho caçula, pelo que você descreve, é bem inquieto, o que não necessariamente o torna Hiperativo. Para um diagnóstico de hiperatividade, é preciso a avaliação de uma equipe multidisciplinar, pois o tratamento envolve medicação o que, para crianças muito pequenas, precisa ser cuidadosamente avaliada a real necessidade. Ele precisa da avaliação de uma Neuropsicóloga, psicóloga, psicopedagoga e neurologista. O diagnostico de um único profissional não é suficiente para uma avaliação com resultado preciso, exatamente porque muitos confundem agitação excessiva, que pode ser gerada por outros fatores, com hiperatividade. O cuidado nesta avaliação é fundamental.

Pelo que você descreve, ele não dorme bem e é muito agitado comparado ao irmão. Primeiro ponto: nunca faça comparações, pois isso fará você sempre acentuar as diferenças entre eles. Eles são diferentes, como a maioria dos irmãos. Imagine se o caçula tivesse nascido primeiro, provavelmente você o enxergaria de outra forma, pois você não teria uma referência comparativa. Pense em cada um de maneira única e individual. O fato de serem diferentes não os torna certos ou errados, apenas diferentes.

Alguns comportamentos que você descreve são perfeitamente normais para a idade dele, tipo:

- "Não parar um minuto" - a maioria dos meninos são pequenos aventureiros e querem descobrir o mundo no menor tempo possível, eles só não sabem que tem limitações, o que os torna agitados e irritados.
- "Ser chorão" - o choro é uma expressão da criança que precisa ser respeitada e entendida. Ele pode significar muita coisa. Em crianças muito pequenas, é a maneira que eles têm para dizer que estão insatisfeitos com algo ou alguma coisa. Tente escutar o choro como uma fala. O que ele poderia estar lhe dizendo ao chorar?
- "Dormir mal" - Criar um ambiente tranquilo é fundamental, isso inclui o ânimo dos pais. Estejam tranquilos e calmos para que ele se sinta seguro para dormir. Algumas crianças tem medo de dormir, pois acham que vão ficar sozinhas, porque é escuro, etc. Por isso as crianças em geral, precisam de segurança para entenderem que dormir é seguro e faz bem.
- "Não tem paciência para nada, trocar fralda, etc" - Nesta idade a paciência não é uma virtude. Eles são impacientes mesmo. O contrário é que é fora de regra.
- "Bater a cabeça no chão" - também é comum nesta idade, pois é uma maneira de chamar a atenção para o que ele quer. Ignore que logo passa, e não se preocupe que ele não irá se machucar. Eles batem a cabeça, mas sabem o limite da dor e não se machucam. Uma maneira de ignorar é sair de perto e quando ele se aproximar, tente mudar de assunto, tipo oferecendo uma comidinha, um brinquedo, aja como se nada estivesse acontecendo.
- "Viajar com ele é difícil" -  Ele precisa de limites e saber o que precisa ser feito para a sua segurança. Crianças muito pequenas aprendem rápido sobre limites e são os pais que vão ensinar. Use um cinto que realmente prenda ele à cadeira e converse dizendo calmamente que ele terá que ficar ali e que não poderá vir para o banco da frente, pois pode se machucar (fazer dodói). Repita isso quantas vezes for necessário, mas sempre com tom de voz baixo e calmo. A calma é fundamental na educação dos filhos.
- "Faz coisas sem demonstrar medo" - A sua autodefesa não está ativada e ele não demonstrará medo mesmo, até mesmo porque ainda não tem. Somente por volta dos três anos é que começará a apresentar medo. Crie ambientes seguros e tome mais cuidado ao sair com ele. Logo, logo ele terá algum medinho.
- "Fala e canta o tempo todo, mexe em tudo, a casa vive de cabeça para baixo" - Que fofo!! Ele precisa de um lugar seguro para brincar. Crie no quarto dele ou em um canto da casa um lugar com tapete de EVA, piscina de bolas, bastante almofada e brinquedos de montar e desmontar para ele se entreter. Ele precisa disso e é do temperamento dele ser um pouco mais agitado que o seu filho mais velho, até mesmo pela idade, características pessoais, etc. Ensine-o que quando tirar algo do lugar, ele deve colocar de volta. A criança aprende por repetição, então repita esse comando quantas vezes forem necessárias.
- "Na hora de comer é um sacrifício, ele vai muito bem nas primeiras colheradas, mas logo se cansa de ficar sentado e sai correndo" - Criança não deve ser obrigada a comer. Se ele vai bem nas primeiras colheradas e sai correndo, significa que já está satisfeito. Pare de dar comida nesta etapa. Quando ele sair correndo, pare a comida! Ele vai aprender que se quiser comer mais, vai precisar ficar sentado. Encare cada atitude dele com mais tranquilidade, com fome tenha certeza que ela não ficará. Ele aprenderá a lhe pedir comida e a respeitar estes momentos, só que com naturalidade.
- "Ele atrapalha muito o irmão mais velho nas brincadeiras e atividades e isso me traz grandes conflitos" - Preserve o espaço de seu filho mais velho. Isso é fundamental para que eles sejam amigos irmãos. O pequenino precisa respeitar o tempo e o espaço do irmão. Isso é bom para a auto-estima dos dois. Nunca use a frase: "Você é mais velho e tem que entender...". Eles odeiam e não ajuda em nada. O pequenino tem que brincar com seus brinquedos e no seu espaço e, quem sabe em alguns momentos, brincar com o irmão, mas só em alguns momentos.
- "O comportamento é igual em qualquer lugar, confesso que ultimamente tenho deixado de frequentar certos lugares, porque volto prá casa exausta de tanto correr atrás dele" - Infelizmente isso faz parte. E para que as coisas fiquem diferentes, você terá que discipliná-lo. Tem um livro bem fácil de ler que é "Domando a sua ferinha", nele você encontra dicas bem legais sobre como agir em lugares públicos. Vale a pena dar uma olhadinha.
- "Tem o sono agitado" - Se ele tem um dia agitado, terá sono agitado. Um é reflexo do outro.
- "É agressivo com ele mesmo" -  Ele ainda está na fase oral, onde tudo é conhecido pela boca. Então levar objetos à boca, se morder, etc, pode ser uma maneira de chamar atenção e de se expressar. O universo que ele conhece é ele mesmo, então é nele que serão manifestados muitos comportamentos. Se ele se morde e com isso tem a atenção de todos, ele o continuará fazendo. É o mesmo principio de bater a cabeça. Aja da mesma forma.
- "Morde a chupeta com força" -  Fase oral, recursos orais. Morder, chupar, engolir, etc.

Bem o que você descreve sobre o seu filho caçula não são sintomas, mas sim comportamentos. Os sintomas caracterizam uma patologia e os comportamentos um jeito de ser que pode perfeitamente ser modificado. Não se preocupe tanto. Ela está manifestando muitos comportamentos comuns à idade. O que ele precisa é de orientação para os seus comportamentos, disciplina para as suas atitudes e lugar seguro para se expressar, conhecer e explorar o mundo ao seu redor. Acredite, ele tem mesmo muita energia e precisa de mais espaço para manifestá-la.

Para você ficar mais tranquila, procure a consultoria de uma educadora ou psicóloga infantil. Marque uma sessão para você e procure orientações, isso vai deixá-la mais calma e segura para educar com tranquilidade e segurança os seus filhos.
Abraços,
Lila

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A morte para as crianças

Crianças na fase pré-escolar acreditam na morte como algo temporário e que pode mudar, como nos desenhos animados. Entre os cinco e nove anos, a percepção muda e começa a ser de um evento irreversível. Somente entre nove e dez anos a morte passa a ser percebida como uma interrupção das atividades do corpo. No entanto, quando essa pergunta surge: O que é morrer? Os adultos tremem em pé e não sabem muito bem o que dizer aos pequenos. Tentam desculpas esfarrapadas e no final não respondem nada. As crianças? Continuam a questionar. E mais: lançam perguntas profundas sobre o ser humano, a vida e a morte. Precisamos estar bem preparados para darmos respostas satisfatórias. Até mesmo porque hoje em dia elas não se sentem satisfeitas com qualquer resposta. Elas querem saber mais e mais... A cegonha? Tudo bem, elas podem até aceitar esse argumento, mas querem saber onde elas pegam o bebê, quem os fez, como entram e saem da barriga da mamãe e quem escolhe se vai ser menino ou menina? Falar sobre a morte é tão simples, mas pode tornar-se tão complexo quanto falar do nascimento.
Ao contrário do que muitos adultos pensam, a criança entende sim sobre a morte e o morrer. Tentar omitir ou negar a existência da morte para uma criança é como excluí-la da experiência familiar e social. Elas vão questionar sem angustia, e com a maior naturalidade, até mesmo porque elas têm a necessidade de respostas verdadeiras e para elas tudo é muito natural, pelo menos até que nós adultos provemos ao contrário. Ter o cuidado de respeitar o tempo de compreensão e o desenvolvimento intelectual de cada criança é algo fundamental.

Quando algum membro da família morre, surge a dúvida: o que e como dizer às crianças? Esconder? Nem pensar! Até mesmo porque elas são sensíveis e irão perceber que o clima familiar está diferente. Se ela não sabe o motivo, pode pensar que é por ela e se sentirá confusa e desamparada. Dizer a verdade é sempre o melhor caminho. E temos muitas maneiras para dizermos a mesma coisa. Dizer que a pessoa foi viajar ou dormiu, pode criar a expectativa de que ela voltará e não ajudará nem um pouco a criança a elaborar o seu luto. É importante ficar atento ao luto mal elaborado de uma criança. Os sintomas são semelhantes aos de um adulto: ansiedade persistente, medo de outras perdas, medo de morrer, culpa persistente, hiperatividade, compulsões, euforia e depressão.

Muitos pais evitam falar sobre a morte para seus filhos, pois temem que sofram, mas esquecem que o sofrimento faz parte da vida e do aprendizado de estar vivo. Elas podem sofrer sim com a notícia e provavelmente irão fazer muitas perguntas. Seja sincero, sensível e acima de tudo respeite qualquer manifestação emocional da criança, que pode ir do choro ao silêncio. De qualquer maneira, a reação da criança ao luto, está relacionada a forma como os pais e ou familiares abordarão o assunto e como se sentirão diante da perda.

Ir ou não ao enterro? Crianças pequenas demais podem ser poupadas desse momento, principalmente se ela estiver confusa ou assustada. Em geral, não obrigue a criança a ir ao velório e enterro. Ela tem a sua própria maneira de se despedir e futuramente poderá escolher outra. Caso ela deseje participar das cerimônias, informe-a do que ela vai ver por lá. Deixe-a livre para perguntar o que quiser e ficar pelo tempo desejado.

Qualquer dúvida sobre o tema entre em contato por e-mail.
Abraços,
Lila

sábado, 10 de outubro de 2009

Crianças precisam de liberdade para errar

Por Suzane G. Frutuoso
Fonte: Revista Isto É, 07/10/2009.

No dia em que o filósofo escocês Carl Honoré, 41 anos, foi chamado na escola do filho Benjamin, hoje com 10 anos, e ouviu da professora de artes que o menino desenhava muito bem, ele se encheu de orgulho e sonhou alto. Saiu de lá e foi fazer uma pesquisa na internet sobre escolas de educação artística. Já imaginava: "Estarei criando o próximo Picasso?" Mas, ao indagar o menino sobre o curso, levou um balde de água fria. "Não quero ir para uma aula na qual o professor vai me dizer o que fazer. Só quero desenhar", disse Benjamin, com firmeza. "Por que os adultos têm que tomar conta de tudo?" Honoré percebeu quanto estava sendo um pai ansioso querendo dominar a felicidade simples do filho e transformá-la em realização. Ele entendeu também que não estava sozinho. Foi quando deu início às pesquisas do livro "Sob Pressão" (Ed. Record), recém- lançado no Brasil. "A ideia era retomar minha autoconfiança como pai e ajudar outros da mesma maneira", diz Honoré, que também é pai de Susannah, 7 anos. Uma das principais vozes do movimento slow (por uma vida mais tranquila), o filósofo foi criado no Canadá e hoje mora em Londres. Ele domina o português porque morou no Brasil em 1988 e 1990 para trabalhar com meninos em situação de risco.

ISTOÉ - Qual o problema de pais que, como o sr., tentam desde cedo lapidar a vocação infantil?
Honoré - Não há nada errado em encorajar o talento de um filho. Pelo contrário. É uma das principais responsabilidades dos pais identificar suas paixões e ajudá-los a desenvolvê-las. Mas existe uma grande diferença entre incentivar um talento e colocar a criança sob pressão, numa corrida obsessiva mirando o topo. A infância serve para descobrirmos quem somos e no que somos bons gradualmente, sem ninguém decidindo por nós. Deveria ser um tempo de experimentação em uma série de atividades diferentes. Focar logo cedo em algo leva ao perigo de se fechar para outras opções. Você limita os horizontes da criança no momento em que ela deveria estar aberta para um mundo de possibilidades. Uma criança não é um projeto que você pode modular. Ela é uma pessoa que precisa de permissão para ser protagonista de sua própria vida.

ISTOÉ - Mas a sociedade acredita que talento bom é talento precoce, certo?
Honoré - Talento precoce não é garantia de futuro brilhante. Crianças mudam conforme crescem, especialmente na adolescência. O menino que dribla espetacularmente os amigos, como o jogador Robinho fazia aos 6 anos, pode ser um atleta medíocre aos 13. Crianças precisam de espaço e liberdade para cometer erros, fazer más escolhas, ficar em segundo lugar no pódio. É assim que elas aprendem a trabalhar seus pontos fortes e descobrirão no que são boas. Claro que há casos de crianças prodígio que treinam com afinco seus talentos naturais e alcançam benefícios - na música, por exemplo. Mas é importante lembrar que é uma minoria. Nossa cultura exige perfeccionismo. Isso torna difícil para nós, pais, segurar expectativas e ajudar nossos filhos a desenvolver todo potencial que têm sem cair na fantasia de que eles podem ser os próximos Pelé, Paulo Coelho ou Caetano Veloso.

ISTOÉ - Como a pressão, com atividades que em tese melhorariam o desempenho no futuro, pode ser prejudicial?
Honoré - É possível acabar para sempre com o desejo dela por algo de que goste. Acelerando o processo de aprendizado, frequentemente não se aprende tão bem. Uma professora de música de Londres me contou sobre uma menina que começou a estudar violino aos 3 anos. Ela saltou à frente de seus pares. Mas aos 6 a técnica dela era tão distorcida que precisou passar meses reaprendendo o básico. As outras crianças que ela tinha ultrapassado acabaram deixando-a para trás.

ISTOÉ - Quais são os problemas do mundo contemporâneo que já afligem as crianças?
Honoré - Estamos em um momento único da história da infância na qual somos pressionados a oferecer uma infância "perfeita" aos nossos filhos. Uma série de tendências convergiu ao mesmo tempo para produzir uma cultura da perfeição. A globalização trouxe mais competição e incertezas sobre o mercado de trabalho, o que nos deixa mais ansiosos em preparar os filhos para a vida adulta. A cultura do consumo alcançou a apoteose nos últimos anos. O próximo passo é criar uma cultura de expectativas elevadas: dentes, cabelos, corpo, férias, casa, tudo deve ter perfeição. E crianças perfeitas fazem parte desse retrato. É uma cultura do tudo ou nada. Ou você é uma celebridade ou você é um ninguém. É rico ou pobre. É feliz ou depressivo. Parece que perdemos todas as nuances entre os extremos. Não toleramos coisas medianas ou boas o suficiente.

ISTOÉ - Por que isso acontece?
Honoré - Porque os pais dessa geração perderam a autoconfiança. O que nos torna iscas fáceis de empresas que criam produtos desnecessários para cuidar de crianças. Ao mesmo tempo, a sociedade é profundamente impaciente. Queremos tudo agora. E achamos complicado recuar e deixar as coisas acontecerem. Sou pai e sei como é confuso criar uma criança nos dias de hoje. O foco do livro não é demonizar os pais. É nos fazer menos culpados e inseguros em relação aos nossos filhos.

ISTOÉ - Como, então, incentivar o talento das crianças de modo saudável?
Honoré - Primeiro, não pressionando os muito pequenos. No esporte, há um número recorde de crianças com lesões graves, como rompimento dos ligamentos, porque estão treinando como profissionais. Quando crescem, deixam o esporte de lado por perderem o prazer de praticá-lo devido à competição que viveram muito jovens. Para medir a paixão de um filho por algo é necessário observar, ouvir e ler os sinais dele. Se nunca fala sobre uma atividade que pratica pode ser sinal de que não está completamente engajado naquilo. Se dorme no carro a caminho da atividade ou tem olheiras, provavelmente está sendo exigido demais. Se você tem de brigar para que um filho se dedique ao que faz, talvez seja hora de parar. A resistência contínua é sinal de que a atividade não é a ideal para a criança. Ou não é o momento certo. Também é crucial não deixá-la preocupada em relação ao desempenho. Encoraje-a a se dedicar constantemente, mas sem pressa. O pai do golfista Tiger Woods permitiu que ele fosse adiante num ritmo comedido. Sua política era fazer Tiger se desenvolver em seu próprio ritmo, nada além disso. E olhe como funcionou!

ISTOÉ - Existem paralelos entre crianças com excesso de atividades extracurriculares e crianças exploradas em trabalhos infantis?
Honoré - Talvez existam. Em ambos os casos, elas são prejudicadas ao serem impedidas de viver uma infância apropriada. O tempo delas não lhes pertence realmente. Criadas assim serão menos criativas. Estão tão preocupadas em agradar aos adultos e fazer tudo certo que não aprendem a pensar por si sós e a olhar para dentro de si mesmas. Sofrem com stress. Como têm cada minuto organizado e supervisionado por adultos, mais tarde descobrirão que é difícil viver por conta própria. Nunca amadurecerão. Há pouco tempo, soube do caso de um professor que pediu a um rapaz de 19 anos que desligasse o celular em aula e ouviu: "Por que você não resolve isso com a minha mãe?" Há pais que estão indo a entrevistas de trabalho com os filhos negociar salários e benefícios.

ISTOÉ - Parece que os pais de hoje sofrem justamente por terem inúmeras possibilidades e não saberem o que é melhor. Eles estão apavorados?
Honoré - Muito. Eles têm um mundo de conselhos, alertas e opções - e ficam sem saber o que fazer. E quando não sabemos o que fazer acabamos fazendo o que todo mundo está fazendo. Pais confiantes são resistentes ao pânico e à pressão, conseguindo assim encontrar o caminho para educar seus filhos. Não existe fórmula mágica para educar. Cada criança é única, assim como cada família. O segredo é encontrar a fórmula que funciona melhor para você e seu filho.

ISTOÉ - Há no Brasil pais escolhendo a escola dos filhos de 5, 6 anos conforme um ranking daquelas cujo ensino garante o ingresso nas melhores universidades. Eles estão certos?
Honoré - É o mesmo fenômeno aqui na Inglaterra. Eles querem que o filho entre numa boa universidade. O problema é o sistema para chegar lá. As melhores escolas são tão obcecadas em alcançar as maiores pontuações nos exames de avaliação que a educação sofre falhas. Há colégios hoje que são como fábricas com uma linha de produção. É uma escolha difícil para os pais. Não se pode esperar que sacrifiquem o futuro de seus filhos. Então, acredito que seja a única coisa que esses pais podem fazer nas atuais circunstâncias. Mas há outro ponto a ser lembrado. Criar um mundo perfeito para seu filho, no qual tudo é gerado de acordo com as necessidades dele, em que as emoções dele sempre vêm primeiro, não é uma preparação razoável para a vida adulta. Não é assim que o mundo real funciona. Nem todos aqueles que vão para as melhores escolas particulares e mais renomadas universidades são mais felizes, saudáveis e bem-sucedidos.

ISTOÉ - O que é fundamental na educação de uma criança?
Honoré - Elas precisam de tempo e espaço para explorar seu próprio mundo. Precisam de amor e atenção. Devem ter permissão para se arriscar. Há um movimento na Inglaterra contra festas de aniversário esbanjadoras. Muitos pais estão limitando os presentes que os filhos recebem ou até os proibindo. Estão reaprendendo a dizer não. Investimos tempo, dinheiro e energia num currículo matador para nossos filhos, mas tendemos a vacilar na disciplina. Do mesmo modo, crianças precisam dizer não para nós às vezes. Vejo uma mudança se aproximando. Pelo mundo, escolas estão revendo a obsessão por exames e evitando o excesso de atividades acadêmicas para que os alunos tenham tempo de relaxar, refletir e aprender coisas sozinhos.
"Uma escola escocesa eliminou a lição de casa dos 3 aos 13 anos. Em um ano, as notas em matemática e ciências melhoraram 20%

ISTOÉ - Há outros exemplos?
Honoré - Sim. Para que os jovens voltem a se interessar por esportes, as ligas esportivas estão reprimindo o abuso de pais que enfatizam a importância de ganhar a qualquer custo. Recentemente, o Massachusetts Institute of Technology (MIT) reformulou o formulário de matrículas com ênfase num número menor de atividades extracurriculares que os alunos considerassem importantes para a futura carreira e optassem por assuntos que lhes despertassem paixão. Até mesmo Harvard está revendo o excesso de atividades, como mostra uma carta da direção encaminhada aos novos alunos.

"Você pode equilibrar melhor sua vida se participar de algumas atividades por puro divertimento, mais do que daquelas que imagina que serão um diferencial para conseguir emprego. As relações humanas que você construir com seus colegas pode ter uma influência maior em sua vida futura do que o número de cursos que você fará." O título: "Vá devagar: absorvendo mais de Harvard e fazendo menos."