segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Por que os adolescentes ficam tão irritados?


Gosto de observar pessoas e a minha profissão me encoraja a fazer isso, mas gosto de observá-las principalmente por ser muito interessante. As crianças e os adolescentes têm uma atenção especial nas minhas observações, pois eles me surpreendem. As crianças são leves e espontâneas, elas de fato não se preocupam com quem está por perto, diferentemente dos adolescentes que parecem estar sempre querendo dizer algo para todos, sejam através de suas roupas, gestos, falas, posturas ou humor. Ah, o humor, quase todo mundo conhece ou vai conhecer um adolescente irado, pois quase todos expressam a sua ira em algum momento do seu crescimento como ser humano. Para eles, este é um poderoso meio de comunicação dos seus sentimentos, mas em geral ela é assustadora para os pais e as demais pessoas que convivem com o jovenzinho.

Quando observo os jovens, acabo refletindo sobre os lares de onde eles vêem, é como se eu pudesse afirmar quais vêem de lares estruturados e cuidadosos e quais vêem de lares conflitantes e desorganizados. Mas, quando os observo com mais detalhe e fito os seus olhos, toda aquela minha confiança vai embora. Mesmo porque conheço adolescentes rudes que tem pais com o coração de ouro e outros calados, retraídos que tem uma família que faria qualquer um estremecer.

Os pais sempre perguntam: “É normal um adolescente sentir tanta raiva?”. Pasmem, mas a resposta é “Sim”. Todos os adolescentes experimentam esta emoção. Na verdade o adolescente deve sentir-se zangado, pois sem essa expressão emocional, seus sentimentos negativos ficariam sufocados dentro de si e poderia prejudicá-lo físico, emocional e espiritualmente. O que estraga é o excesso de raiva e o fato de não sabermos como lidar com ela.

Nós adultos ensinamos aos nossos filhos que a raiva é uma emoção negativa. Atrevo-me a afirmar que você já disse ao seu filho: “Você não pode falar nesse tom de voz comigo!”. Bem pelo menos eu já disse, pois temos uma necessidade de comunicar aos nossos filhos que as pessoas “más” é que ficam zangadas e as “boas” livram-se da sua raiva. É o que aprendemos e vamos repassando sem muita reflexão do que estamos fazendo.

Bem, dizer simplesmente aos nossos filhos que deixem a sua raiva de lado não adianta muito, precisamos ensiná-los a usar construtivamente este emoção. E como fazemos isso? Hoje pela manhã, tive um exemplo prático em casa de como podemos permitir que a raiva de nossos filhos se expresse, mas com consciência e responsabilidade. O meu pequeno de quatro anos e sete meses estava jogando no computador, ele têm um “pavio meio curto” e como não estava acertando a jogada, ele “espancou” o teclado do computador. Eu lhe disse: filho, assim o computador quebra e você não poderá jogar mais, porque não bate no colchão? Ele me olhou por um segundo e coitado do colchão, apanhou bastante. Bem, meu filho não é um adolescente ainda, mas sinceramente até lá espero que ele aprenda a lidar positivamente com toda a sua raiva.

Mas como podemos ajudar os nossos adolescentes irados? Quero começar pelo que “Não” devemos fazer, pois tais comportamentos somente aumentarão a ira: (Obs.: estas dicas servem para as crianças também)

- Não forcem o adolescente a pensar ou a agir de determinada forma;
- Não tirem dele objetos apreciados, esperando coagir o jovem a colaborar;
- Não diga que ele precisa pensar em maneiras construtivas de lidar com as suas emoções (quem está com raiva não pensa);
- Não use força física;
- Não o faça se sentir culpado para que se arrependa;
- Não use chantagem;
- Não retire o afeto para que ele aprenda a respeitar as suas emoções;
- Não dê sermões;

Então o que podemos fazer? Você deve estar se perguntando...
Convido vocês a compreendê-lo. Os adolescentes irados em geral, lançam a acusação: “Você não me entende!” quando começamos a entendê-los a cura começa a operar.

Muitos pais dizem que se compreenderem seus filhos eles vão achar que concordam com o que estão fazendo. Primeiro passo é realmente entender que compreender e concordar não são sinônimos, podemos compreender sem concordar. Os adolescentes sabem quando estamos fazendo isso. Por que muitas vezes o processo de terapia com adolescente é eficaz? Exatamente por que ele é compreendido, por mais que saiba que muitas vezes seu terapêuta não concorda com ele.

A raiva de um adolescente sempre tem uma fala por trás e fazermos realmente um esforço para compreendê-las é tentar efetivamente ajuda-los, sem a necessidade da força física, castigos ou argumentos sobre a vida e etc., pois eles pensam: esta não é a minha experiência, é a sua! E eles têm razão.

Eis algumas declarações que escuto desses adoráveis jovens:
- “Ninguém nota as minhas necessidades”, pode parecer exagerado, mas ele está pedindo para ser tratado com justiça. Eles se sentem desrespeitados.
- “Tenho vergonha do erro que cometi, mas como posso admitir sem levar sermão?” O embaraço vivido por uma experiência muitas vezes é disfarçado de ira. Eles não gostam de parecer fraco, mas quem gosta?
- “Eu perco o controle” Na adolescência provamos de uma independência que não tínhamos na infância e tememos perdê-la. É só lembrar de você adolescente, tenho certeza de que já passou por isso.
- “Eles acham que eu não sei tomar decisões” Eles estão tentando ganhar autoconfiança e maturidade e precisam ser assegurados por nós que podem ser capaz de tomar decisões e que isso é um aprendizado.
- “Eu não quero perder a minha juventude” Acho esta expressão muito significativa, principalmente quando vêem da boca de meninos e meninas de 13, 14 anos. Eles se referem ao aqui e agora, para eles a juventude está acontecendo e querem explorar o mundo. Precisamos ensiná-los a fazer isso com responsabilidade.

Não pense que a raiva do adolescente vai passar imediatamente só porque você o está compreendendo, as coisas não são tão rápidas assim. Quando você está com raiva, você se acalma imediatamente? Claro que não, não é? Você precisa de um tempo, até para a respiração se normalizar, o coração desacelerar, etc. Com o adolescente é da mesma forma. Então tente agir da seguinte maneira em momentos de crise de raiva do(a) seu(a) filho(a):

- Evite uma explosão de ânimos entre vocês, ou seja, evite brigas inúteis (na verdade elas sempre são inúteis), pois em uma discussão com um adolescente você pode ganhar uma batalha, mas você perde a guerra. Espere ele se acalmar para depois conversar.
- E nessa conversa foque a situação de maneira objetiva, sem sermões que eles simplesmente odeiam e não use a sua experiência de vida para dar exemplos do tipo, “Quando eu tinha a sua idade...” esse argumento só levará o adolescente a pensar que você não o entende e não entende nada.
- Repense na relação de vocês, o que ele pode estar dizendo por trás de tamanha raiva, esse é um grande passo para a compreensão. Uma dica: coloque-se no lugar dele, pensando “Se eu tivesse X idade o que eu queria dizer com isso?”.- Tenha mais tempo de qualidade com seu filho adolescente. Preocupamos-nos de fazer isso quando eles são pequenos, mas deixamos de lado quando eles crescem, porém as necessidades continuam, em formato diferente, mas estão aí. Eles querem a nossa atenção e o nosso respeito. É claro que não posso deixar de mencionar o amor, mas amar simplesmente não basta, o amor precisa estar associado a compreensão, paciência, comunicação e orientação positiva.

Penso que muitas vezes nos afastamos de nossos filhos quando eles crescem porque não sabemos lidar com o adolescente e adulto que existe dentro de nós. E quando nos vemos refletidos em nossos filhos, ficamos assustados e irados tanto quanto ou mais que eles. É como se estivéssemos com raiva de nós mesmos.

Estarei focando novamente este tema por aqui, pois ele é amplo e o considero importantíssimo para nós pais e para os nossos jovens.

O vídeo abaixo é de uma propaganda japonesa que foca a qualidade de tempo dos pais com os filhos. Reflita sobre como você está lidando com os seus.

Abraços;
Lila Rosana



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Criança vê, criança faz!


O que decidimos ensinar aos nossos filhos vai além das palavras, os mais eficazes aprendizados se dão pelo exemplo. Tudo o que fazemos e dizemos tem sempre um olhar observador e um ouvido atento, por mais que nós não percebamos. Filhos são observadores sutis. Seus filhos podem não falar nada, mas certamente estarão tirando suas conclusões. Todas as experiências observadas ficam impressas na mente. Crenças, valores e exemplos apreendidos vão estar presentes no momento em que estiverem em situações semelhantes.

Nós pais, somos os primeiros modelos de vida para nossos filhos e é através dele que as crianças procuram entender o mundo. É de onde vão tirando as suas conclusões do que é certo/errado, bom/ruim, o que podem ou não fazer. Não adianta nada você falar para seu filho que ele não pode mentir se ao tocar o telefone você diz: “Se for para mim diga que eu não estou.” Os exemplos falam mais do que as palavras. “As crianças fazem o que vêem fazer, não o que lhes dizem para fazerem”.

Um psicólogo chamado Alfred Bandura pesquisou um processo que ficou conhecido como “Aprendizado Social”. Ele separou dois grupos de crianças e as levou para uma sala repleta de brinquedos variados, entre eles um joão-teimoso. O primeiro grupo brincou à vontade com os brinquedos, inclusive com o joão-teimoso. O segundo grupo, antes de entrar na sala, assistiu a um vídeo em que uma criança começava a brincar com o joão-teimoso e levava uma bronca enorme de um adulto, que lhe dizia para não tocar no boneco. Depois de assistirem ao filme, as crianças foram conduzidas para a mesma sala de brinquedos do primeiro grupo. Bandura notou que as crianças brincaram à vontade com os brinquedos menos com o joão-teimoso, que ninguém tocou. Ou seja, ninguém lhes disse para não brincar com o boneco, mas viram o que aconteceu com a criança que se meteu a fazê-lo e acharam melhor procurar outro brinquedo.

Esta pesquisa é um bom referencial de que as crianças não aprendem só com a própria experiência, mas especialmente com a experiência de outros.

É de extrema e vital importância estarmos atentos aos ensinamentos que queremos passar para nossos filhos, pois as nossas crenças originais permanecem conosco e continuam a influenciar nosso modo de ser e pensar durante anos.
O vídeo acima foi produzido por uma ONG Australiana para uma campanha sobre o tema: Criança vê, criança faz!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Quando Nos Tornamos Pais


Costumo dizer que todos deveríamos ser pai e mãe, pois não existe experiência mais enriquecedora do que esta. É uma experiência rica por vários motivos, que vão além da alegria de ter um filho sorrindo e solicitando por você ou da certeza da perpetuação da nossa espécie, é uma experiência rica principalmente pela grande oportunidade de evoluirmos como ser humano, tomarmos uma consciência maior do outro e de nós mesmos. Mas a grande pergunta é: “Estamos preparados para sermos pais?” E como esse preparo se dá? Não existe manual e nem fórmulas mágicas, mas existe um excelente caminho rumo à maternidade/paternidade que é o autoconhecimento. Através dele podemos acessar as nossas experiências enquanto filho, pois é com elas e através delas que vamos caminhar educando os nossos pequenos.
É importante descobrir a nossa verdade infantil, como fomos educados e que tipo de pais tivemos, o que eles nos ensinaram e como nos cuidaram física e emocionalmente.
Uma boa parte da nossa experiência infantil, mesmo as mais inconscientes, vem à tona no momento em que nos tornamos pais, especialmente porque cuidar de um filho nos remete ao momento em que fomos cuidados ou descuidados pelos nossos pais. Você deve e pode perguntar: Como as nossas experiências infantis reaparecem e como elas se manifestam na nossa relação com nossos filhos? Antes de responder quero compartilhar duas falas que frequentemente escuto de adultos: “mas eu era tão pequena e não me lembro de nada” ou “as crianças nem se dão conta do que estão vivendo” A maioria das pessoas prefere pensar assim, que a sua história passada não determina a sua história presente e, dessa forma, vivem a ilusão de que suas vidas não são determinadas por elas, e o pior que a criação de seus próprios filhos não sofre nenhuma influência de seu passado infantil. Mas uma pessoa que carrega necessidades infantis não satisfeitas de amor, atenção, afeto, carinho, cuidados físicos, etc. tentarão suprir essas carências em seus próprios filhos, por exemplo, através de um excesso de cuidado, ou de uma terrível dominação, chantagens emocionais ou fazendo dos seus filhos seus confidentes.
Os maus tratos recebidos na infância levam algumas pessoas, por exemplo, a destruir a própria vida e de outros, quando falo em destruir, não me refiro apenas ao fato de dar fim a vida física, mas sim também de tornar a sua própria vida e a dos demais insuportável. Muitos pais batem em seus filhos, pois apanharam quando criança, outros abusam física e emocionalmente porque sofreram o mesmo, e assim o trauma é perpetuado. A teoria do trauma fala dentre muitas coisas, uma que acho particularmente importante, que todo trauma* tende a se repetir na tentativa de elaboração. Por exemplo, é bem provável que filhos que apanharam estarão envolvidos em relações de maus tratos quando adultos e podem maltratar seus filhos, com isso estarão tentando inconscientemente entender e ou resolver as suas dores psíquicas.
Não podemos mudar os fatos acontecidos em nosso passado, mas podemos dar um novo significado para as nossas experiências, e isso é possível no momento em que decidimos olhar com compaixão para a nossa infância e nos permitimos aceitar a verdade sobre nós mesmos.
Gosto dentre muitas, de uma frase de Nietzsche: “Aquilo que não me mata só me fortalece”, esse é um lembrete poderoso de que as nossas experiências dolorosas podem nos auxiliar a nos tornamos mais fortes.
Cuidar do nosso passado infantil não é tarefa fácil, pode ser uma jornada densa e cansativa, mas vai nos auxiliar a encontrar respostas para muitas questões antes não resolvidas e o melhor de tudo, podemos cuidar de maneira saudável de nossos filhos, sem corrermos o risco de repetir com eles e neles os nossos dramas infantis.

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*O significado psicanalítico da palavra “trauma” refere-se a um fato, realmente acontecido, de que tenha tido alguma importante repercussão no psiquismo do sujeito.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Crianças e Adolescentes Vitimas de Abuso Sexual


Há pouco tempo atrás falar abertamente sobre abuso sexual* de crianças e adolescentes era um verdadeiro tabu. A grande maioria dos casos era escondido por vergonha e medo. Hoje a realidade está um pouco diferente, mas os adultos, por motivos diversos, ainda preferem, manter o silêncio, fazendo de conta que nada está acontecendo, pois expor e enfrentar a situação de forma aberta e corajosa implica em mexer em uma ordem familiar estabelecida.
Por conta deste interminável sigilo, as crianças e os adolescentes tornam-se involuntariamente cúmplices de sua própria dor, sendo obrigadas a assumirem sozinhas as terríveis conseqüências físicas e psicológicas do abuso.
O abuso acontece sempre que a criança ou o adolescente estão sozinhos. Este terrível segredo é difícil de ser partilhado, pois tanto a criança quanto o adolescente teme a punição ou não acreditam na capacidade do adulto de protegê-los. Se não conseguem falar é porque não tem mais confiança no adulto. Outros, quando falam, são desacreditados e acusados de sedução. Para um vitima não há nada pior do que se abrir para algum que duvida dela.
R.C. Summit (1983) descreveu a síndrome de acomodação da criança e adolescente vítimas de abusos sexuais: “Se o diagnostico de abuso não foi feito, e se as pessoas não acreditam na criança ou no adolescente, os distúrbios são mais discretos e eles aprendem a aceitar a situação e sobreviver a ela, sob o risco de as conseqüências só se manifestarem mais tarde na forma de graves problemas de personalidade”.
As nossas crianças e os nossos adolescentes estão sequelados pelo excesso de abuso que sofrem e é o nosso dever ajudá-los. Romper com o silêncio e acreditar na vítima do abuso é um primeiro e importante passo.
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* A Organização Mundial de Saúde define o abuso sexual da seguinte maneira: “A exploração sexual de uma criança ou adolescente implica que esta seja vítima de um adulto ou de uma pessoa sensivelmente mais idosa do que ela com a finalidade de satisfação sexual desta. O crime pode assumir várias formas: ligações telefônicas obscenas, ofensa ao pudor e voyeurismo, imagens pornográficas, relações ou tentativas de relações sexuais, incesto ou prostituição de menores”.

A Amizade para as Crianças


As crianças fazem amigos de maneira muito diferente dos adultos. Isso é muito fácil de observa, é só olhar duas crianças desconhecidas e ver como elas interagem. Elas se olham, sorriam e muitas vezes sem palavras em excesso elas iniciam um relacionamento.

Na medida em que elas vão se encontrando mais vezes, elas vão se sentindo confiantes e mais conectadas uma com a outra. Essa forma de conexão é a grande diferença entre amigos crianças e amigos adultos. Nós adultos determinamos como queremos os nossos amigos, o que eles devem ou podem fazer pela gente e como precisam se comportar para manter a amizade. Para as crianças não existem regras definidas, elas simplesmente são amigas, sem cobranças e acima de tudo, sem expectativas. Isso se dá porque as crianças vivem a vida no presente, elas não pensam como querem que seja o amanhã e o que querem que seus amigos façam para que ela se sinta mais feliz, elas aproveitam o que está acontecendo agora.

Na verdade, temos muito que aprender com esses pequenos mestres. Dia após dia eles nos dão grandes lições. Uma delas é sobre o perdão: quando duas crianças brigam, por mais “grave” que tenha sido o motivo, logo elas conseguem fazer as pazes, pois para elas tudo é mais simples e não precisam ficar remoendo os motivos que as levaram a tal briga. Simplesmente elas decidem brincar de novo.
Crianças não perdem amigos, elas fazem novas amizades, não existem crianças amigas que deixaram de ser amigas, elas podem até deixar de se encontra porque mudaram de escola, ou de bairro, mas no próximo encontro na praça, elas estarão se falando com a mesma energia, intensidade e graça de antes.
Nós adultos estamos sempre buscando a fórmula mágica para os relacionamentos e estamos sempre reclamando por não encontrar. Então, aqui vai uma pequena dica: observem mais as crianças se relacionando e aprendam!
“Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança jamais será sábio.” Rubem Alves